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Uma verdadeira lição de vida

Se vc é daquelas pessoas que acha problemas em tudo, que acha que a sua vida é uma droga, essa reportagem é para vc. As vezes a felicidade está além de um bem material. Ela pode estar numa insignificante, numa coisa simples.

Leia e reflita...

UM PAI VERDE NA RECEITA FEDERAL

 

Ananda Apple

 

Conheci um grande homem do qual me lembrei muito na véspera de Dia dos Pais. Foi há quatro meses, quando fui ao prédio da Receita Federal  de São Paulo fazer uma reportagem sobre Imposto de Renda. Fui apresentada a ele pela auditora da Receita Claire Feliz, toda feliz mesmo, por ter na sala um pôster oferecido pelo “seu”Albino Affonso.

Ele é um senhor de 70 anos que acabou se aposentando agora um junho, depois de décadas como contínuo. Eternamente de bom astral, apesar dos problemas de saúde da mulher, o caipira de Jaboticabal era a alegria do Departamento de Recursos Humanos. Pois seu Albino tinha transformado aquela sala e cheia de computadores, onde todos só pensam em números, numa inusitada galeria de arte com fotos coloridas.

O contínuo humilde é, há anos, um exímio fotógrafo da natureza. Dedica-se fotografar árvores e plantas ornamentais em flor em São Paulo e no interior, pulando cercas, esperando o melhor momento. Não sabe o nome da maioria das plantas, mas tem a sabedoria, a paciência de quem respeita o momento certo, o ângulo.

A máquina é antiga, modesta, sem recursos, um presente de um velho amigo.E ele faz milagres.

Seu albino diz “parece que as plantas ficam esperando que eu chegue lá, elas ficam bonitas para mim! Aí eu chego lá e tiro a foto!”. Simples assim.

Ele me contou que certa vez fotografou um ipê amarelo em floração na estrada do metrô da Estação Luz e mostrou para os colegas. Ninguém acreditou, disseram que era montagem. Pois o paciente fotógrafo teve que levar o pessoal até a janela do departamento e apontar para o ipê a alguns metros. Estava lá no nariz de todo mundo e ninguém via. Ou seja, seu Albino tem olhos para ver o que a maioria “passa batido”, passa raspando e não enxerga. Como o pé de laranjeira que frutificou numa varanda feia de classe média baixa. A azaléia esplêndida num latão azul que ele pediu “pelo amor de Deus” para o motorista da caminhonete parar, colocar no chão e deixa-lo fotografar, Ou a cássia amarela que ele fotografou ao sol do meio-dia, sombreada por outra árvore, que dá a impressão de formar o mapa do Brasil.

E assim seu Albino coleciona álbuns e álbuns de fotos maravilhosas de flamboants, espatódeas, primaveras, congéas, girassóis, resedás, bromélias, papos de perus, tudo o que você imaginar que já tenha florescido por aqui. Não faz diferença se elas estão em vasos, no campo em calçadas, jardins, varandas ou muros. Basta que ele ache bonito e que haja sol.

Fiz com ele duas reportagens para a TV Globo. A primeira no Quadro Verde do Bom dia São Paulo, que chamou tanto a atenção, que deu origem a segunda, no Antena Paulista. Pois lembrei dele nesse Dias dos Pais porque, às vésperas de se aposentar, sei que deixou órfãos todos aqueles funcionários da Receita Federal que acharam os olhos de lágrimas ao falar dele e de seus últimos dias ali.

Seu Albino tornou os dias de todos mais leves, mais verdes, e, como disse a auditora Claire Feliz, “essa arte não é mais só dele, é de todos nós, é de todo mundo. Até porque muitas dessas plantas não existem mais”.E, em seguida, o abraçou e os dois choraram.

A cena aconteceu na minha frente. Ela, uma sumidade em números, acostumada a dar entrevistas na televisão. Ele, um homem humilde, tímido e com uma certa dificuldade para falar. Dois mundos diferentes, mas com uma identidade em comum: a sensibilidade.

Muito Modesto, sem máquinas digitais, sem dinheiro para bancar um livro, seu Albino tirou uns caraminguás do bolso para fazer alguns calendários com suas fotos. Mas o talento e o entusiasmo deste senhor cheio de energia que chega ao fim da vida com um salário tão pequeno merecia muito mais atenção e carinho. Merecia, no mínimo, um presente de Dias dos Pais. Seria sonhar demais que ele pudesse ter um livro bancado pela iniciativa privada? A história dele já é um presente para quem vê. Feliz Dia dos Pais, seu Albino!

 

 



Escrito por angra_ph às 18h13
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